sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Cabeço de Montachique - Quinta de S. Gião

Foto 1
Nas inúmeras vezes que me desloco de minha casa na Venda do Pinheiro para Loures ou Lisboa passo pela povoação de Cabeço de Montachique.
E ao longo deste tempo a curiosidade sobre esta localidade foi-se acentuando. Hoje parei e fotografei uma das igrejas que está ao longo da estrada.
Após uma pesquisa na net fiquei a saber que Cabeço de Montachique é uma freguesia dividida por dois concelhos, o de Loures e o de Mafra, e que a sua história é bastante antiga. Dos diversos apontamentos que encontrei, refere-se que esta localidade foi uma das povoações em que o Conde de Bonfim colocou vigias defensivas face à batalha de Torres Vedras em 1864, fazenda parte da 2ª linha do sistema defensivo, a par com Ribas e Picotinhos.
Já no período que ficou conhecido como Guerra Civil Portuguesa ou Guerras Liberais (1828-1834), valerá a pena mencionar que, em 1833, ao aproximar se de Lisboa, onde mal conseguiu entrar, D. Miguel faz uma proclamação ao povo, a partir do Paço em Cabeço de Montachique, em 2 de Setembro de 1833, seguindo no mesmo dia com o quartel general para Loures, onde publica na Ordem do Dia uma segunda proclamação, desta vez ao seu exército.
De salientar também, que as águas provenientes de Cabeço de Montachique eram no século XVIII conhecidas para efeitos terapêuticos (Anemias, anémorreias, nevroses -Contreiras, 1951), sendo caracterizada por ser Sulfatada cálcica, ferruginosa (Contreiras, 1951). Foram mencionadas na Memória do médico João Nunes Gajo, e apresentada à Academia das Ciências em 1780.
Guilherme Eschewege na sua Memória Geognóstica, ou golpe de vista da estratificação de diferentes rochas, de 1831, classifica estas águas como águas férreas e diz haver várias nascentes. (cit. Acciauoli 1944/II,127 ) O deputado Tavares Macedo apresentou às cortes, na sessão de 20 de Julho de 1839, a proposta “… que o governo seja autorizado para dar à sociedade Pharmaceutica um conto de reis para trabalhos chimicos, especialmente a análise de águas mineraes […] vamos dar uma prova e estima a uma sociedade muito importante, uma sociedade que está fazendo grandes estudos, o que vai fazendo muita honra ao nosso Portugal”. Transformada em lei a 31 de Julho de 1839, a Sociedade Farmacêutica Lusitânia realizou ainda nesse ano a análises das nascentes nos arredores de Lisboa : Casal de Barras; Vale de Camarões; Quinta da Sadinho; Quinta dos Ribeiros; Quinta do Botão de Baixo; Cabeço de Montachique; Venda Seca e Vale de Lobos. Sendo que, sobre as nascentes em Cabeço de Montachique, escreveu Lopes (1892): “ há várias nascentes de água férrea, sendo a mais importante a da Estrada junto do chafariz” (Foto 6).
 Aqui, era possível observar diversas espécies de aves, como por exemplo; a carriça, o gaio, a perdiz, o tentilhão e o mocho-galego. Entre os anfíbios, encontravam-se a rã-verde, o sapo, a salamandra-de-costas-salientes e o tritão-de-ventre-laranja, e nos répteis a cobra-rateira, o cágado, a lagartixa-do-mato e o sardão e mamíferos como o coelho bravo, a doninha e o texugo. Não é de estranhar por isso, que nos finais do século XIX e início do século XX, Cabeço de Montachique, tivesse sido uma importante estação climática, muito procurada pelos tuberculosos de poucos recursos devido aos seus “bons ares”. Esse fenómeno deveu-se em parte, à propagação epidémica da tuberculose, que ocorria por toda a Europa nessa altura. E embora a vacina tenha sido criada por volta de 1906, não foi devidamente disseminada até ao final da metade do século XX. Esta, aliada à melhoria significativa das condições da saúde pública levou a que a mortalidade aliada à tuberculose descesse a pique até aos dias de hoje. Mas enquanto a medicina não evoluía e o mundo assistia atónito à disseminação desta doença respiratória e contagiosa, com maior incidência entre as classes mais pobres, eram precisas alternativas. Criaram-se então sanatórios, estabelecimentos que atingiam proporções dignas de autênticas prisões e que eram dedicados ao isolamento e tratamento da doença (apesar dos benefícios do “ar fresco”, 75% dos doentes internados nestes sanatórios acabavam por morrer no prazo de 5 anos, segundo dados de 1908). Assim, e dentro deste contexto, bem como, a localização geográfica de Cabeço de Montachique face a Lisboa, verifica-se com normalidade e fatalidade necessária, o papel importante que esta localidade assumiu nos cuidados de saúde contra a tuberculose. Chegaram a existir, nesta área, pelo menos 5 estruturas deste tipo. Dessa época destacam-se; o Sanatório Grandella (ou Albergaria) no sopé do monte – junto à Estrada Nacional N.º 374 – que nunca foi concluído, a antiga Casa de Saúde Guedes (na Rua Dr. João António Oliveira Assunção), a «Casa da Bela Vista» (com outro nome - hoje em ruínas, no topo do monte da Bela Vista) e a Quinta de S. Gião (pertença do Ministério da Saúde, que albergou o Antigo Centro Psiquiátrico de Recuperação de Montachique).(Fotos 1, 2, 3, 4 e 5)
Fotos 2 e 3
O crescente movimento de pessoas, que procuravam em Cabeço de Montachique o ar puro e a cura para as suas maleitas, trouxe consigo uma panóplia de pessoas (que vieram em busca de trabalho e por conseguinte, de condições económicas mais favoráveis) e um conjunto de ferramentas de apoio (necessários a toda uma estrutura inerente aos doentes infecto-contagiosos - tuberculose). Este facto trouxe consigo um crescimento exponencial de habitantes (mas também aumentou o risco de contágio com a população) e de infra-estruturas. O curioso, é que muitos dos doentes da altura, acabaram por constituir família com as pessoas, que os tratavam, tendo permanecido na região até aos dias de hoje.
Foto 4
Foto 5
Foto 6
Foto 7 - Ponto mais alto de Cabeço a 408 m de altitude

FOTOGRAFIAS: Autor do Blog
TEXTO: Apontamento feito com recurso à consulta da Wikipédia e a outros apontamentos na Net

3 comentários:

Um brasileiro disse...

ola. tudo blz? estive por aqui. muito interessante. legal mesmo. apareça por la. abraços.

Paulo Fialho disse...

ola,fiquei orgulhoso e admirado com o seu apreço e conhecimento da historia da minha terra,sendo eu filho de um doente dessa instituiçao,nascido e criado nesta mesma terra.devemos valorizar sempre quem se empenha na divulgaçao da historia,vivencia,costumes,locais,momumentos e etc...bem haja sr.joão..abraços paulo alexandre mendes silva fialho

daniela_slopes disse...

Boa tarde, obrigada pela sua partilha. Moro perto e desde há algum tempo que passo por este local todos os dias. A sua partilha fez-me ir ao local para conhecer mais um pouco da sua história, pois tenho bastante interesse em locais abandonados. Infelizmente a minha visita foi muito curta, sai de lá mais depressa do que entrei pois ouvi um cão a ladrar imenso e amedrontada sai logo, e ainda bem que o fiz. Do lado de fora do muro, já na estrada e ao abandonar o local vejo que estava um rottweiler muito perto do telhado, provavelmente no sótão. Gostava de lá voltar mas já o vi mais vezes logo leva-me a concluir que é morador habitual, mas acho estranho a propriedade pertence ao ministério da saúde e morar lá alguém. Sinceramente espero visitá-lo, mas para isso precisaria de uma autorização. Ou do ministério ou simplesmente de quem se apoderou do terreno.

Mais uma vez muito obrigada pela sua partilha,
Daniela